sábado, 16 de janeiro de 2010

Os Outros Vão Pensar?

É admirável o esforço que os meios de comunicação estão fazendo para conscientizar a sociedade sobre a importância de proteger as crianças. Mas, pra ser franca, quando eu era pequena não tinha medo nenhum de bicho-papão, mula-sem-cabeça ou de bruxa malvada.
Quem me aterrorizava era outro tipo de monstro. Eles atacavam em bando.
Chamavam-se Os Outros.

Nada podia ser mais danoso que Os Outros. As crianças acordavam de manhã já pensando neles.
Quer dizer, as crianças não: as mamães.

Era com Os Outros que elas nos ameaçavam caso não nos comportássemos direito.
Se não estudássemos, Os Outros nos chamariam de burros.
Se não fôssemos amigos de toda a classe, Os Outros nos apelidariam de bicho-do-mato.
Se não emprestássemos nossos brinquedos, Os Outros nunca mais brincariam conosco.

E o pior é que as mães não mantinham a lógica do seu pensamento.
-Mas mãe, todo mundo dorme na casa dos amigos.
-Eu lá quero saber dos Outros, só me interessa você!
Era de pirar a cabeça de qualquer um.
Não víamos a hora de crescer para nos vermos livres daquela perseguição.

Veio a adolescência, e que desespero: descobrimos que os Outros estavam mais fortes do que nunca, ávidos por liquidar com nossa reputação.

Você vai na festa com esta calça toda furada? O que Os Outros vão dizer.
Filha minha não viaja sozinha com o namorado, não vou deixar que vire comentário na boca dos Outros.
Não tinha escapatória: aos poucos fomos descobrindo que Os Outros habitavam o planeta inteiro,
estavam de olho em todas as nossas ações, prontos para criticar nossas atitudes e ferrar com nossa felicidade.

Hoje eles já não nos assustam tanto.
Passamos por poucas e boas e, no final das contas, a opinião deles não mudou o rumo da nossa história.
Mas ninguém em sã consciência pode se considerar totalmente indiferente a eles.
Os Outros ainda dizem horrores de nós.
Ainda têm o poder de nos etiquetar, de nos estigmatizar.
A gente bem que tenta não levá-los a sério, mas sempre que bate uma vontade de entregar os pontos ou de chorar no meio de uma discussão, pensamos:
Não vou dar este gostinho para Os Outros...

Está para existir monstro mais funesto do que aquele que poda nossa liberdade.

Martha Medeiros

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